Cora Coralina e vozes emersas
Omar da Silva Lima

O livro tem por objetivo analisar poemas de Cora Coralina e, através deles, mostrar como, nas obras Poemas dos becos de Goiás e estória mais, Meu livro de cordel e Vintém de cobre: meias confissões de Aninha, a poeta questinona o papel da mulher no final do século XIX/início do XX. Com base na abordagem de cunho feminista de gênero, procura-se comprovar que, através da linguagem poética, a autora não só questiona as construções sociais dos papéis da mulher, como também, ao mesmo tempo, revela e denuncia os mecanismos propagadores da ideologia imposta pela dominação masculina, que é sustentada pela estrutura político-ideológica de uma sociedade capitalista e patriarcal. O estudo foi organizado a partir das reminiscências de Cora, que permitiram traçar um perfil panorâmico das mulheres naquela época, principalmente das mulheres do povo. A poeta funciona como uma espécie de representante delas, assumindo-lhes a voz que fora sequestrada pela sociedade de base massculina. O trabalho aborda desde a situação das meninas reprimidas e humilhadas, que se transformam em donzelas castas programadas para o casamento e a maternidade, - ficando excluídas desse ciclo as moças feias ou aquelas obrigadas a permanecerem solteiras para cuidar dos pais, já velhos -, às mulheres marginalizadas socialmente por transgredirem, de alguma forma, os papéis estereotipados para a mulher incluindo-se, aí, a própria poeta. Entretanto, verifica-se que Cora Coralina não consegue fugir à uma atitude machista em relação às funções sociais programadas para a mulher, reiterando, assim, aspectos vigentes na sociedade patriarcal na qual estava inserida, mostrando-nos a força de uma ideologia.