![]() A Mercantilização do Futebol Brasileiro Julio Cesar de Santana Gonçalves Carlos Everaldo Silva da Costa Marcio Silva Rodrigues Em suas origens, o futebol mostrava um forte caráter lúdico, onde a diversão, a construção de laços afetivos e de identidade entre os indivíduos formatavam o perfil desse esporte. O futebol, como fenômeno social, estava fundamentalmente subordinado à lógica substantiva assentada em valores e tradições. Entretanto, a atratividade do esporte como gerador de riqueza passou a ser alvo de investimentos e fonte de negócios. A partir do momento em que a lógica de mercado se faz presente nas organizações esportivas, ocorre a inserção e a adoção de elementos do universo empresarial, dos negócios, na administração dessas organizações. Modificam-se os mecanismos de controle; conceitos e práticas empresariais passam a vigorar, modificando o discurso de seus dirigentes, bem como as bases de sua legitimação no seu contexto específico. Sendo assim, a ascensão de uma nova lógica de referência traz consigo novos atores, novos procedimentos e categorias antes exclusivas ao ambiente das organizações empresariais, como mercadoria, clientela, eficiência, resultado e competitividade. Em decorrência do enorme interesse econômico que este esporte passou a representar, o Estado modificou o marco legal do futebol, de modo que se percebe que os valores mudaram e os objetivos da prática esportiva também; a impessoalidade nas relações entre os participantes se instalou; a profissionalização dos atletas é rigorosa; e a cultura do negócio se apropriou do contexto do futebol. Os clubes de futebol do Brasil, inicialmente com a Lei Zico e mais fortemente a partir da Lei Pelé, convivem com um novo paradigma: a passagem de clubes sociais para o status de clubes-empresas. Essa alteração de status, e o surgimento de novos clubes já como empresas, têm mobilizado diversos segmentos da sociedade, federações esportivas, o Estado e outros atores sociais no sentido de aumentar o âmbito de suas ações do local para o nacional, e deste para o contexto internacional. O futebol transformou-se numa imensa indústria que movimenta milhões de dólares no mundo inteiro. Produziram-se espetáculos esportivos, surgiram os grandes atletas profissionais e os mitos esportivos. Submetido à lógica de mercado, os jogadores transformaram-se em mercadoria, os torcedores em consumidores, o jogo em um ativo financeiro e o futebol é visto como um grande negócio. Esta obra conclui que em razão da alteração da lógica de ação, de substantiva para “de mercado”, o conjunto das ações e das características das entidades futebolísticas brasileiras incorporaram elementos comuns ao universo empresarial. As relações centram-se na impessoalidade; criam-se e são desenvolvidas estratégias de controle que assegurem o alcance dos objetivos, assim como ações mercantis modernizantes; e a gestão considerada “legitimada” é aquela que se dá sob os moldes empresariais, e não mais no amadorismo. Mesmo diante de tais alterações de normas e valores institucionais, e com as mudanças nas interações entre os parceiros nesse campo, tal cenário enfrenta a resistência de agentes tradicionais como os “dirigentes cartolas”, torcedores e elementos de tradição dos clubes.
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