
Da Linguagem à Comunicação no Evangelho
João Bartolomeu Rodrigues (Portugal)
Com este trabalho, pretendemos mostrar que a mensagem veiculada no Evangelho está carregada de uma comunicação actuante, apesar dos dois milénios que nos separam da sua origem. Faz, ainda, parte da nossas intenções mostrar que a difusão do Evangelho, ao logo da história, contou com o contributo da retórica, desde a primeira hora. Desde os alvores do cristianismo até aos nossos dias, insignes oradores, herdeiros da retórica clássica, colocaram a sua arte e engenho oratório ao serviço da difusão do mesmo Evangelho. Evidenciar alguns rasgos que marcaram a cultura ocidental e contribuíram decisivamente para que a mensagem bimilenar do filho de um carpinteiro do Médio-Oriente moldasse não só os contornos da cultura portuguesa, mas ganhasse horizontes universais, eis o propósito que nos anima nesta árdua, mas gratificante caminhada.
Como ponto de partida para a nossa investigação, levantamos as seguintes questões: de que instrumentos retóricos se socorreu o pregador de Nazaré para fazer passar a sua mensagem? A que linguagens recorreu? Quais as situações de incomunicação com que Jesus se debateu? Que papel teve a retórica na difusão do Evangelho? Assim, e numa tentativa de dar resposta ao problema, vamos dividir o nosso trabalho em duas partes.
Na primeira parte, analisaremos os principais instrumentos de que Jesus se serviu para fazer passar a mensagem do Evangelho: a Palavra, o uso de parábolas, o recurso aos milagres e, finalmente, a questão das formas literárias e seu contributo. O critério na ordem dos recursos não é aleatório. Pelo contrário, há uma intencionalidade na hierarquização dos mesmos. O critério diz respeito à importância, por nós atribuída a cada recurso, no contexto geral do Evangelho. Ele é discutível, mas procuraremos justificar explicitamente as nossas escolhas, abrindo-nos precisamente à discussão.
Na segunda parte, centraremos a nossa atenção no papel que a retórica desempenhou na difusão do Evangelho, em três momentos bem concretos: na Igreja nascente, concretamente, no livro dos Actos dos Apóstolos; no período da Patrística, onde destacaremos a figura de Santo Agostinho, com os seus dois tratados de retórica; e, finalmente, na cultura portuguesa, cuja escolha recairá sobre a figura do Padre António Vieira, e o seu contributo para o que viria a chamar-se “método” português de pregar.
O texto dos Evangelhos, o livro dos Actos dos Apóstolos, os textos de Santo Agostinho e as obras do Padre António Vieira constituem as fontes de primeira mão. Como fontes secundárias, ou de segunda mão, procuraremos apoiar a nossa investigação, tanto quanto possível, em especialistas de cada área abordada.
Apesar de ser um trabalho que recai sobre um texto religioso, a fé não é requerida ou não é pressuposto fundamental, para a nossa investigação, pois a nossa abordagem situa-se na óptica da comunicação. O mesmo é válido para a história da difusão da mensagem evangélica. Este pressuposto não só autoriza que um historiador da comunicação, sem fé, por exemplo, possa debruçar-se sobre os seus conteúdos, como o legitima. Olhar o Evangelho e a sua difusão, na perspectiva da comunicação, eis o desafio que decidimos enfrentar.
Pensar a comunicação não é tarefa que se apresente fácil. A sua análise revela-se, particularmente árdua, porque ela é, antes de tudo, uma actividade humana, que se reveste de uma característica peculiar, que diz respeito ao facto do sujeito da comunicação se achar simultaneamente no papel de actor e de analista. Orientado para a plena manifestação do Ser, o texto evangélico confronta-se, pois, recorrentemente, com a necessidade de delinear o contorno de uma realidade inefável. Basta isto para perceber que a análise e a interpretação dos Evangelhos não prescindam de uma hermenêutica atenta aos instrumentos retóricos usados na sua formulação e nos textos que os prolongam, com o propósito de os esclarecer ou difundir.
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